O olhar do outro – na imprensa

Diário da Manhã, Goiânia, 8/8/2013

A fulgurante palavra de Luíza Mendes Furia

ALEXANDRE BONAFIM *

     Com delicadeza, com extremo cuidado, Luíza Mendes Furia engendrou, em Inventário da Solidão, poemas de levíssima e contundente beleza, textos de ampla expressividade acústica e visual. Nesse aspecto, aproveitando a lição dos simbolistas, Furia tangeu o arco de sua lira com maestria, extraindo da linguagem seus acordes mais doces e sutis. A sensação que temos é que sua palavra transcorre pela página como marulho de águas, de chuvas mansas e doces:

Luíza Mendes Furia-2

Foto: Valéria de Almeida Pedreira – 13/3/13

MoradaErgui minha casa na noite/ sem muros/ Ao longe o rio da infância/ e seu eterno murmúrio// Cultivei jardins rebeldes/ amantes da água e do vento/ e neles passeio os olhos/ quando estou sedenta.// Ergui minha casa na noite/ de translúcidas janelas/ Ao longe a cidade ecoa/ uma canção que é só dela// No alto a solidão/ enluarando tudo. (p.12)

     Chama atenção, no livro, pela alta qualidade literária, os poemas em que a autora se entrega ao fluxo da memória. Tal tema, caro à poeta, aliás, precioso para todo escritor digno de nome, irriga a palavra de Furia e nos remete a uma espécie de ultratempo, de pantempo proustiano, capaz de mesclar, no chão raso do agora, passado e futuro, numa espécie de instante absoluto, epifânico. Esse momento soberano, iluminador, resgata o homem do transcurso cronológico, profano, abrindo-lhe as dimensões do sagrado.

Infância – 1 Eu poderia dizer-te/ que havia um jardim com rosas/ e o sol matizava as pedras/ das ruas por onde andavas// O alarido das crianças/ a caminho da escola/ corria sobre as calçadas// Havia cantos secretos/ diálogos com as sombras// Havia, desde sempre, tudo:/ as estações se sucediam/ com hora quase marcada// O medo me devorava/ com suas caras insanas/ e meu rosto se abrasava/ no pôr-do-sol sobre as casas/ Mas no sangue já se mesclavam/ adágios, sonatas e um silêncio que pesava// Poderia dizer-te muitas coisas/ se a água da memória/ não levasse para o fundo/ minha voz que se elevava// À pedra limosa me encontrarás agora/ agarrada como um líquen// Porque me irmanei àqueles de estirpe obstinada/ e a correnteza passou por mim sem levar nada. (p.15-16)

     Esse poema, inventário de assombros de um eu a se desvelar ao mundo, resgata os primeiros, raríssimos, sustos da infância. O olhar dessa persona lírica é o olhar inaugural da criança, olhar em perene estado de alumbramento, a batizar o mundo no que esse tem de refulgente e terrível. Irrompem, no texto, os medos típicos da infância, mas, em contraposição a esses sobressaltos do terror, nasce também a milagrosa rutilância da poesia: “Mas no sangue já se mesclavam/ adágios…”

     Sabemos que, a partir de Proust, o tempo tornou-se, para muitos autores, o tema fundamental da trama lírica. A poesia, para o autor francês, é, na verdade, a própria revelação do tempo, com todo o seu esplendor e a sua voluptuosidade. Essa é a dimensão temporal da poesia de Furia: uma revelação do lirismo no cerne de nossa existência:

Infância – 3 Porque tudo na vida é passado/ rebusco-te nas fotos da infância/ o vestidinho pregueado/ alguma trança/ que se desfez ao vento/ cariciando seus cabelos finos// Porque agora é também ontem/ habitando esparsas latitudes/ em contração e espasmo o pensamento/ delineia a sempre mesma busca// Ainda hoje um raio claro/ povoou teu rosto, fragmentou-se em sombras/ efêmeros detalhes/ e em teus olhos se firmou/ como um sorriso frágil/ a serenar-se em fugaz arquitetura// Revisito tua imagem cotidianamente/ e assim o meu amor se expande/ em tessituras de vôo e altura/ Porque o passado/ é um presente que perdura.(p.18)

     O eu lírico revisita o passado e os leitores ganham, ao empreender essa viagem pelo poema de Furia, uma dimensão humana mais fecunda.

     Um outro aspecto que nos chama a atenção na poesia da autora é a criação de imagens raras, de grande expressão plástica, como as que podemos antever nesse poema:

Infância – 2 Minhas mãos ficaram presas nos prelúdios/ dentro dos pianos de tampas fechadas/ e desde então me contento em olhar a lua/ como se tocasse música em meus olhos// Os plenilúnios são canções noturnas/ aves rapinas rondando as madrugadas/ que, sem querer, escuto.// A luz feita de pássaros do luar difuso/ pousa sobre a mesa/ na sala escura em que um rumor de sombras/ envolve meus sentidos. (p.17)

     Metáforas de criação, com grande expressividade, como esses “prelúdios que são aves”, essa “luz de pássaros”, irrigam a poesia de Furia, ecoando, no leitor, aquela força encantatória típica da poesia moderna, capaz de embalar o ser até as profundidades. É o que também notamos em Poema – 4: Alguém ao longe afina suas cordas/ para a canção que virá/ profunda e lenta// O silêncio é o prelúdio/ de suas notas// Alguém que espera a noite vai regendo/ um quarteto de pássaros e de vento/ até que a voz se alteie num crescendo/ e fira a solidão com seu lamento. (p.36)

     Para elaborar essas imagens de grande acuidade visual e harmônica beleza, a autora desvela-nos uma poesia fiel às raízes do Ser. Para lembrarmos Heidegger, a palavra é a casa do Ser e o poeta é o guardião dessa morada. Furia nos guarda em sua palavra, nos germina, nos adensa em nossa humanidade. Para tanto, estamos diante de uma poesia de perfeito labor técnico, de delicada artesania, uma poesia livre de modismos vãos, de pretensas inovações sem consistência, uma poesia antes de tudo fiel ao lirismo, em um tempo de homens antilíricos. Conforme Novalis “a poesia lírica seria a pura expressão do poético, do mundo da magia”, ou melhor, conforme o eminente poeta alemão “a Poesia é o real absoluto”.
Fiel a essa verdade, Furia é uma artesã perita em lavrar a palavra em suas formas mais delicadas. É o que podemos notar nessa verdadeira obra-prima, o texto Poema – 1: Esculpir conchas/ tão delicadas/ e diversas/ é um segredo do mar/ e dos moluscos.// Fazer versos/ como quem esculpe conchas/ um desafio interminável/ ininterrupto. (p.33)

     Para encerarmos esse nosso breve passeio pela poesia de Luíza Mendes Furia, transcrevemos o poema Vésper, texto emblemático de toda a obra da autora, em que o desejo pelo outro torna-se a grande dimensão lírica do Ser: é para outro todos os poemas e, para ele, o poeta tão pacientemente se entrega, com louvor e íntegra dedicação: Conservo o verão para que não me deixes/ Este verão de folhas a se abrir nas mãos/ E em ti farei habitar as correntezas/ por que fluem as horas em cardumes de estrelas.// Conservo o verão para que não te percas/ E a inocência das chuvas há de banhar teu rosto/ E plantarei as palavras ainda úmidas e tersas/ sobre os campos e os ninhos. E que floresçam.// Conservo o verão para que não me esqueças/ sentada numa cadeira a contemplar as tardes/ como se fossem navios ancorados na surpresa/ como se fosse alaúdes que o vento tangesse. (p.41)

     Tangidos por esses arpejos, nos percebemos nessa poesia e, nela, nos encontramos a nós mesmos.

* Alexandre Bonafim é poeta, contista, ensaísta e professor de literatura brasileira. Este ensaio foi publicado inicialmente em maio de 2008 no seu blog Arquipélago do Silêncio.

 

malu010606-2Sobre Inventário da Solidão Vênus em Escorpião (edição artesanal)

CARLOS MACHADO *

     Conhecer a poesia de Luíza Mendes Furia é penetrar num rico universo lírico. Em seu Poema-1, que a poeta parece adotar como profissão de fé, ela ambicionaesculpir conchas, sabendo que se trata de um segredo do mar e dos moluscos. Mas ela não se rende: propõe a si mesma esse desafio interminável.
No poema Saudade, cuja epígrafe é o primeiro verso da Hora Absurda, de Fernando Pessoa, a poeta descobre que a alma é um jardim abandonado/ ao ar do outono e à algidez das ruas. Pessoa se orgulharia dessa homenagem. Os dois poemas citados até agora pertencem ao livro Inventário da Solidão.
De outro volume, Incisões no Branco, extraí o poema (**) sem título  [O gole, o sorvo de ar]. Aqui a poeta provoca um clima de pesadelo, sufocação e fim de tudo, com o ser angustiado diante da poeira do não vivido.
Para concluir esta breve notícia da poesia de Luíza Mendes Furia, escolhi alguns poemas entre os trinta que formam o exuberante Vênus em Escorpião. Com um lirismo afiadíssimo, a poeta constrói textos eróticos em que ousadia e leveza se combinam em invejável harmonia.
Sempre pensei comigo que um grande poeta se revela de várias formas. Uma delas, sem dúvida, é na capacidade de escrever poemas de amor e, mais ainda, poemas eróticos. A explicação é simples: o tema é tão velho, tão batido, que só um talento especial consegue extrair dele alguma emoção nova e legítima. Luíza Mendes Furia realiza esse feito. Não é preciso citar muito. Basta observar como termina o poema XXIV – OrgasmoE propaga/ em longas ondas pela treva/ sua música de seda.

(*) (**) Carlos Machado é poeta, autor de Pássaro de Vidro e Tesoura Cega, jornalista e editor do boletim poesia.net

 

“Em Inventário da Solidão, poemas escritos nos anos de 1980 e 1990, a matéria poética é amalgamada por uma funda consciência da palavra e energizada de erotismo (funda fusão eu-outro, eu-universo).”

Nelly Novaes Coelho, in Dicionário Crítico de Escritoras
Brasileiras
(1711-2000), pág. 380, Escrituras, 2002

Barcelona 1996 by Solange Prat Eslava

Barcelona, 1996 – foto de Solange Prat Eslava

Caderno de Sábado do Jornal da Tarde , 20/3/1999

Luíza Mendes Furia compartilha a harmonia da poesia

Em Inventário da Solidão, ela reflete sobre a ‘música essencial’ e se lança ao desafio de encontrar um ‘interlocutor cúmplice’
Vale o poema elaborado, o olhar feminino que não se perde
o aceno por viver

ÁLVARO ALVES DE FARIA *

    Delicadeza. Absoluta delicadeza. Palavras escolhidas com o cuidado de um artesão. Assim são escritos os poemas de Inventário da Solidão, de Luíza Mendes Furia, um livro envolvido especialmente com a beleza, mergulhado na poesia ainda possível. A própria autora observa que definir o que é poesia é impossível. Mas seu livro pode ser uma definição. Basta percorrer estas páginas numa viagem muitas vezes deslumbrante.

    Não é à toa que Luíza Mendes Furia inicia seu livro com um poema de Cecília Meireles, que a autora homenageia: “Cada palavra uma folha no lugar certo/ uma flor de vez em quando no ramo aberto/ um pássaro parecia pousado e perto/ mas não: que ia e vinha o verso pelo universo.” Os poemas de Luíza seguem assim, guardando sempre a advertência de Octávio Paz: “O poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos da harmonia universal.”
     No primeiro poema de Inventário da Solidão, Luíza Mendes Furia se posiciona diante do próprio livro: “Canto o que vem comigo desde antes/ e são modulações do mesmo grito.” Luíza escreve que “é do infinito que a alma mais tem fome”. Escreve também: “A vida tece a urdidura do avesso/ e é de loucura que o corpo se sacia.” Ela constata: “Deus é um imenso pensamento/ ancorado noutro porto.” É uma poesia de sentimento, preocupada em dizer, sem percorrer os exercícios inócuos da moda inconseqüente.“A poesia é a linguagem essencial, a música essencial e, portanto, indefinível, o grande encontro de um ser e outro ser num espaço sem tempo”, diz Luíza Mendes Furia, acrescentando: “Cada poema é sempre busca de permanência e registro da efemeridade, tentativa de apreensão do esquivo presente.”
Afinal, o que deseja o poeta nesse universo de sombras, contradições, alegrias, silêncios, distâncias? Luíza responde que o poeta quer compartilhar sua harmonia com o outro. Quer falar diretamente à sua essência, encontrando um interlocutor cúmplice da busca dessa harmonia neste mundo caótico e fragmentado”. Seu livro tece essas paisagens interiores com os olhos voltados para a possibilidade da vida. O que vale mesmo é a poesia, essa respiração existencial do instante, esse mergulho no próprio gesto, na própria palavra, no próprio poema, porque, afinal, nem tudo se perdeu.
     Inventário da Solidão é o segundo livro de Luíza Mendes Furia. O primeiro ela publicou quando tinha 17 anos, Madrugada e Outros Poemas. Até chegar a este livro, 20 anos depois, Luíza participou de algumas antologias. Vinte anos significam uma longa trajetória de observação poética. E sobre a poesia que produz ela diz sem receito: “Organizar essa linguagem-música essencial, conseguindo a comunicação com as pessoas, em meio a tantos modismos estéticos contemporâneos, é um desafio ao qual me lanço com a esperança de vitória.”
É a palavra de quem tem os pés no chão, de quem sabe discernir o atual quadro da poesia de um país quase sem saída. Um quadro feito só de melancolias e vaidades incontidas, desonestidades seguramente amparadas por uma mídia que não tem compromisso algum com nada, absolutamente nada. É bom saber que nesse vale de muitas sombras existam ainda poetas que cultivam a palavra, a frase, o poema, a imagem do e para o poema. Cabem aqui dois versos de “Noturno”, de Luíza Mendes Furia: “A noite é de lua, companheiros/ Nada nos resta senão cantar um pouco.”
     A poeta – como afirma – quer fugir desta época de consumo rápido, de uma literatura à moda dos fast food, quase sempre falsamente hermética para ocultar a falta de conteúdo. Por isso tudo, a poesia pode se dar por feliz, neste tempo de desesperos. Vale o poema elaborado, o olhar feminino que não se perde, o aceno por viver. Vale a poesia para quem conhece a poesia. Nesse universo, Luíza Mendes Furia se indaga: “Para quem me dirijo/ senão à minha própria sombra/ meu próprio poço imensurável/ à semelhança dos outros?” Todos os poemas respondem por ela. Todos os poemas podem responder.

* Álvaro Alves de Faria é jornalista, poeta e escritor

Caderno 2 de O Estado de S. Paulo, 18/1/1999

oesp jan99

Paulo Pinto/AE

‘Inventário da Solidão’ reverencia vínculo entre
criação e isolamento

Obra da poetisa Luíza Mendes Furia
será lançada pela Editora Giordano
hoje, às 19 horas

JOSÉ CASTELLO

     Manoel de Barros isola-se toda manhã em seu escritório, tranca a porta à chave e, haja o que houver, não está para ninguém. Está escrevendo. Hilda Hilst exilou-se em um sítio na periferia de Campinas, onde vive entre cachorros, figueiras e ventanias, quieta, debruçada sobre um caderno. Adélia Prado vai para a cozinha e, entre um tempero e outro, anota seus versos ali mesmo, na mesa coberta de farinha, controlando o forno. Ana C. rabiscava versos em papeizinhos secretos, que enfiava na bolsa, às escondidas. Quando podia escrever, João Cabral dava longas caminhadas solitárias e era durante elas que sua mente se preparava para a escrita.  A solidão é a grande companheira dos grandes poetas e dela não poderiam escapar os mais jovens, como Luíza Mendes Furia, que, para reverenciar esse vínculo fundamental entre a criação e o isolamento, vem agora com o Inventário da Solidão, que será lançado hoje, a partir das 19 horas, no Barnaldo e Lucrécia.
Poetas sérios, aqueles que escrevem comprometidos com o susto e não com a performance, costumam ter muito pouco a dizer a respeito do que escrevem. O que a maior parte deles tomará como uma deficiência pessoal, um rasgo de temperamento, uma falha, é na verdade efeito da linguagem poética que, por lidar com a alusão, as ondulações semânticas e as ausências, está sempre atrelada a uma atitude silenciosa. Por isso não assusta a linguagem reticente de Luíza, que, muito depois de publicar um livro de juventude em 1978, aos 17 anos, chega agora ao que considera, de fato, seu livro de estréia.
Os dogmáticos escrevem poemas que não correspondem a seus dogmas ou que apenas os arremedam. É interessante, em contraste, notar a perplexidade que Luíza exibe diante dos próprios versos, ela sim indicando um comprometimento de outra ordem: com o sobressalto. Seus poemas, como qualquer poema, podem ser reduzidos, grosseiramente, a reflexos. Guardam, sim, uma sombra de Cecília Meireles, que, aliás, aparece na epígrafe de abertura, pois Luíza não tem o que esconder. Têm uma dívida antiga, e tímida, com Baudelaire.
Hoje, os críticos divertem-se em debruçar-se sobre poemas para, com ares de perito, puxar os fios das influências, dos diálogos secretos, das filiações. Não há novidade nisso. A literatura, desde os gregos, se parece com um grande emaranhado de palavras, um novelo embaraçado no qual cada escritor entra agarrando uma ponta e repuxa os fios que bem entende, arrastando outros atrás deles, até que o novelo todo se mova e gire. É assim que a literatura se faz, palavras sobre palavras, em abismo, e ficar no fascínio desse mecanismo não leva a nada, a não ser a outras pontas. Ficam como aquela sardinha que, ao nadar, grita “vejam, estou passando pelas mesmas águas do tubarão”, mas continua a ser apenas uma sardinha.
Despreocupação –  Nascida em Caçapava, no interior do Estado, Luíza escreve sem nenhuma preocupação com esse jogo monótono – e até com certo desprezo por ele – e aí está sua primeira qualidade. Já nos primeiros dois versos do primeiro poema, Canção, ela esgota essa questão: “Canto o que vem comigo desde antes/ e são modulações do mesmo grito.” Pronto: está dito que sabe, mas é daí para a frente e não para trás. Em Infância-1, repete: “Poderia dizer-te muitas coisas/ se a água da memória/ não levasse para o fundo/ minha voz que se elevava.”
Memória, tradição, vozes passadas formam um lastro do qual não nos livramos, mas o que importa é o que se faz com ele e não fazer dele uma etiqueta, uma forma de garantia. E, sem negar suas dívidas, sem escamotear influências, Luíza tenta fazer o que já não interessa, hoje, à maioria dos poetas: chegar a si. Não para perder-se no labirinto do confessional, mas para encontrar o traço próprio que, mesmo tecido em panos antigos, possa distingui-la dos demais. Se consegue, é outra questão e podemos dizer, de modo grosseiro, que às vezes sim, outras não. Exatamente como todo poeta que começa – e, aliás, todo poeta está sempre começando. “Escrever, talvez/ para si mesmo”, ela começa em Explicação.
Como ela mesma nos diz, quando escreve pensa nos leitores, esses seres desarmados e sempre prontos para a perplexidade, e não nos críticos, nos leitores cultos e aparelhados. Como é antigo, mas como é alentador, ouvir uma confissão assim. Os temas de Luíza também parecem antigos: a infância, o aprendizado, a eternidade, o verão, a insônia, a solidão. Versos escritos em forma livre, a mais livre e espontânea – e aqui ela enfrenta a ameaça de João Cabral, tomada de Valéry, de que o espontâneo leva só ao conhecido. É um risco, real, que não a perturba; desde o início avisa que escrever é repetir e é para repetir que escreve. A poesia está ali onde a repetição falha, onde, contra sua vontade, contra seus projetos até, o poeta erra.
Há um poema dedicado à avó, outro a Baudelaire. Um poema se chama Germinal, outro é aberto com versos de Pessoa. O leitor metódico se deterá na descoberta dos lugares-comuns – e os encontrará ali e aqui –; o leitor sensível, ao contrário, se deixará levar pelos versos.
É muito interessante ver a liberdade que Luíza Furia se concede, para acertar, para errar, para ir exatamente por onde deseja. Estamos numa década de poetas presos, que querem ser o que não são. Há muito o que esperar de Luíza, que cita o português Eugénio de Andrade, com seu lirismo, escalando-o entre seus escritores favoritos. O lirismo é hoje, na poesia, o grande renegado. Luíza Furia retoma-o, com todos os riscos. Com exceção de um breve intervalo de três anos, quando trabalhou para a Editora Globo, Luíza Furia é, desde os 21 anos, jornalista do Estado.

Estado – Que tipo de dificuldades um poeta enfrenta para começar a publicar?
Luíza Mendes Furia –
Publiquei um primeiro livro, Madrugada e outros Poemas, quando tinha só 17 anos. Continuei sempre a escrever poesia, mas publicar é muito difícil. O Inventário da Solidão esteve uma vez nas mãos da editora Iluminuras e, em outra oportunidade, nas da Nankin, mas não deu certo. As editoras parecem ter medo de publicar um poeta desconhecido. Isso porque, infelizmente, no Brasil, elas acabam correndo um risco financeiro ao editar versos, até mesmo de grandes nomes da literatura nacional.

Estado – Concursos literários não seriam uma alternativa?
LuízaSempre tentei esse caminho também. Meu livro chegou a tirar o segundo lugar no Concurso de Literatura  Cidade de Belo Horizonte. Recebi um prêmio em dinheiro igual ao do primeiro colocado, mas o segundo lugar, ao contrário do primeiro, não tinha direito de publicação, só participaria de uma antologia e essa antologia nunca chegou a sair.**

Estado – Talvez uma alternativa seja não isolar-se, freqüentar grupos de poetas novos, circular pelo meio literário.
Luíza –
Também tentei isso. No início da década de 80, freqüentei um grupo de poetas, o Poeco, ligado à Universidade Mackenzie, e, mais recentemente, participei de algumas reuniões do Cálamo, realizadas uma vez por semana para exercícios poéticos na Casa de Mário de Andrade, em São Paulo. Mas não gosto muito de grupos. Sou muito solitária.

Estado – Não há poetas com quem se identifica e de quem poderia aproximar-se?
Luíza –
A poesia que se faz hoje é muito intelectualizada e eu trabalho por outro caminho, não sou muito teórica, sou mais dos sentimentos. A maior parte dos poetas acha que quanto mais se complica melhor. A poesia está hoje muito influenciada pela universidade. Essa não é a minha área.

Estado – Então, resta ler sozinha. E o que você lê?
Luíza –
Tenho grande paixão por Cecília Meireles, embora muita gente diga hoje que ela fazia apenas uma “literatura para moçoilas”. Leio também Jorge de Lima, Drummond, Hilda e Orides Fontella. Nunca deixo de ler Verlaine. E o Eugénio de Andrade, um poeta português, que está com mais de 70 anos, vive no Porto e é praticamente desconhecido no Brasil, embora a editora Civilização Brasileira tenha editado uma antologia de poemas seus nos anos 80. É um poeta lírico, mas o lirismo parece fora de moda.

Estado – A literatura portuguesa, afora Saramago e Pessoa, é hoje praticamente desconhecida no Brasil.
Luíza –
É uma pena. Sinto isso ainda mais agora, que comecei a colaborar com a revista Orion, da Academia Lusíada de São Paulo, feita também com o apoio do Instituto de Estudos Portugueses da USP. Ajudei a fazer o primeiro número da revista, que saiu em dezembro. Tenho 11 poemas publicados no primeiro número. A Orion traz poetas brasileiros, portugueses e  alguns africanos, o que é raro.

Estado – Você escreveu um Inventário da Solidão e diz também que se sente solitária. A solidão é uma idéia fixa?
Luíza –
Trabalho numa direção um pouco desprezada. Ao organizar o livro, por cautela, decidi deixar de fora vários poemas de amor. Até a última hora, fiquei insegura se devia publicá-lo. Mas decidi que estou com 37 anos e o momento era esse. Não escrevo para críticos, para especialistas, escrevo para o leitor. O poeta escreve para tocar as pessoas e não sentir-se sozinho. Para isso escrevo.

Estado – Mas não é também uma questão de temperamento?
Luíza –
A vida cotidiana é muito superficial e estou cada vez mais fechada. Acho que hoje em dia as pessoas são muito críticas, muito sarcásticas, e eu sou meio delicada. Então me fecho.

Estado – Você escreve prosa?
Luíza –
Tenho uma narrativa iniciada, Do Diário de uma Sombra, uma narrativa poética, em fragmentos. É um monólogo, um diário de um só personagem, um ator. Meu projeto agora é retomá-la.

** A referida antologia veio a ser publicada em 2000, dez anos depois do concurso

Ensaio IV tem uma estrutura interessante, homenageando alguns autores mais conhecidos com inclusões de textos (Bell, Renata Pallottini, Olga Savary), uma microantologia de “colaboradores” e o corpo do livro propriamente dito, onde se destaca o talento lírico de Maria Luíza Mendes Furia.”

Trecho de crítica de CLAUDIO WILLER à antologia
Ensaio IV, do Grupo Poeco – Só  Poesia, publicada no
jornal O Escritor nº 8, da União Brasileira
de Escritores, em março de 1981

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